Igreja Presbiteriana da Graça

Artigo

Conhecimento do Senhor-Buscando para Transmitir



Conhecimento do Senhor-Buscando para Transmitir

“Quando, enfim, toda aquela geração tinha se juntado aos seus antepassados, levantou-se outra geração que não conhecia ADONAI, nem as obras que ele tinha feito em favo de Yisra’el [Israel].”

(Shof’tim [Juízes] 2.10 BJC [Bíblia Judaica Completa])

Durante a última semana tenho pensado muito a respeito do que estou gerando em meus filhos. Lembrei-me deste versículo e de uma mensagem pregada pelo pastor Ed Rene Kivitz sobre as descendências do povo de Yisra’el [Israel] e passei a meditar sobre o conhecimento do Senhor que possuo e o conhecimento que tenho transmitido a todos aqueles que estão ao meu lado.

Considero este um assunto de suma importância, visto que o próprio Tanakh [Antigo Testamento] menciona que foi a falta do conhecimento de Deus nas novas gerações que fez com que o povo de Yisra’el abandonasse ao Deus Vivo e adorasse a falsos ídolos. Diante deste pensamento, gostaria de ressaltar um dos textos mais tristes em toda a Bíblia que ocorreu durante a época dos juízes em Yisra’el.

“Havia um homem das montanhas de Efrayim [Efraim] chamado Mikhay’hu [Micaías – traduzido por Mica nas Bíblias em português]. Ele disse à sua mãe: ‘Sabe aquelas 1.100 peças de prata que foram tiradas de você – pelas quais você pronunciou uma maldição e me falou a respeito? Pois bem, o dinheiro está comigo. Eu o peguei”. Sua mãe lhe disse: ‘Que ADONAI o abençoe, meu filho’. Quando ele devolveu as 1.100 peças de prata para sua mãe, ela declarou: ‘Solenemente, eu dedico este dinheiro a ADONAI, para que meu filho faça uma imagem esculpida e a revista de prata. Portanto, agora eu o estou devolvendo a você'. Ele, porém, devolveu o dinheiro à sua mãe, e ela tomou 200 peças de prata e deu-as ao ourives, que fez uma imagem esculpida, revestida de prata, a qual foi colocada na casa de Mikhay’hu. Esse homem, Mikhah [Mica], possuía uma casa de Deus; então ele fez uma veste ritual e deuses domésticos e consagrou um de seus filhos, o qual se tornou seu kohen [sacerdote]. Naquele tempo, não havia rei em Yisra’el; um homem simplesmente fazia o que pensava estar certo.”.

“Havia um jovem de Beit-Lechem [Belém], em Y’hudah [Judá], da família de Y’hudah, que era um levi [levita]. Ele habitava em Beit-Lechem, mas deixou aquela cidade para encontrar outro lugar para viver; e veio para as regiões de Efrayim, onde acabou tomando o caminho da casa de Mikhah. Mikhah lhe perguntou: ‘De onde você está vindo? ’. Ele respondeu: ‘Eu sou um levi de Beit-Lechem, em Y’hudah, e estou procurando um lugar para viver’. Mikhah respondeu: ‘Fique comigo, e seja um pai e um kohen para mim; eu darei a você 10 peças de prata por ano, além de roupa e comida’. Então o levi foi e concordou em ficar com aquele homem; o jovem tornou-se como um de seus filhos. Depois que Mikhah consagrou o levi, o jovem tornou-se seu kohen e ficou ali na casa de Mikhah. Mikhah declarou: ‘Agora sei que ADONAI me tratará bem, porque tenho um levi por kohen.”

(Shof’tim 17.1 a 13 BJC

Este é o primeiro dos cinco capítulos mais trágicos do livro dos Shof’tim [Juízes] em que praticamente em todos lemos o texto: “Naquele tempo, não havia rei em Yisra’el; um homem simplesmente fazia o que pensava estar certo.” Estes capítulos (Shof’tim 17 a 21) narram a degradação na vida do povo de Yisra’el quando a geração daqueles que conheciam ao Senhor deu lugar a uma nova geração sem este conhecimento.

Observe o exemplo de Mikhay’hu narrado no texto acima. O texto mostra que de algum modo ele estava com o dinheiro roubado de sua mãe. Embora esta tradução não deixe isto muito claro, mas a Bíblia a Mensagem deixa bem explicito: “Na verdade o dinheiro está comigo. Eu o roubei. Mas agora estou devolvendo.”. (Jz 17.2). Provavelmente por temer a maldição pronunciada por sua mãe, um algo que na época era levado muito a sério, ele resolveu devolver o dinheiro. A mãe deste, cujo nome não é mencionado em parte alguma, louva ao Senhor pela devolução. Observe por este ato, que não era uma família de pagãos, mas pessoas com algum conhecimento de Deus.

Como uma forma de agradecer ao Senhor pelo dinheiro recuperado, esta mulher mandou construir um ídolo para colocar em seu santuário particular, o que contrariava totalmente o segundo mandamento: “Não faça para você nenhuma imagem esculpida ou qualquer tipo de representação do que há em cima no céu, nem sobre a terra ou na água embaixo da linha da cosa.” (Sh’mot [Êxodo] 20.4 BJC). Definitivamente, ela pertencia a esta nova geração de israelitas que não conheciam ao verdadeiro Deus. Sabia que existia um Deus vivo, mas nada a respeito deste Deus.

Seu filho Mikhay’hu teve um comportamento semelhante, convidando um levi [levita] para ser seu kohen [sacerdote] e acreditando que devido a este sacerdócio obteria o favor de Deus.

Vejo nestes dois exemplos algumas características daqueles que apenas sabem da existência de Deus, mas não conhecem a Ele. A primeira delas é a tentativa de produzir um deus de acordo com seus interesses. Este é o real sentido da idolatria. Observe no texto que esta família não voltou suas costas a Deus, não tinham um posicionamento de rebelião, pareciam até pessoas sinceras, mas mesmo nesta sinceridade feriram um dos principais mandamentos dados por Deus ao povo de Yisra’el. Quantos a partir de então criam diariamente deuses. E isto não está diferente em nossos dias. Falsos deuses estão sendo pregados em muitos púlpitos, pregações onde até mesmo a Bíblia é usada, mas que têm muito pouco, às vezes até mesmo nada, do verdadeiro Deus. Crer e seguir a Deus implica um verdadeiro conhecimento deste, que é obtido através das Escrituras Sagradas mediante o Ruach HaKodesh [Espírito Santo] a um coração quebrantado diante do Senhor, disposto a abandonar tudo aquilo que possui dentro de si mesmo que esta em desacordo com o Senhor. Qualquer outro posicionamento irá produzir a nós um deus que pode até se parecer com o verdadeiro, mas no fundo não passa de um ídolo. Uma geração que não conhece a Deus é uma geração que esculpe um deus de acordo com a sua própria visão.

A segunda característica que vejo no texto é a tentativa de transformar a vida com Deus em um sistema religioso e acreditar que este sistema pode promover a vida com Deus. Mikhah contratou um levi, alguém que pertencia à tribo escolhida pelo Senhor para servir como kohanim [sacerdotes], e acreditou que apenas porque seu santuário funcionaria de modo semelhante ao Tabernáculo construído por Mosheh [Moisés] receberia o favor do Senhor. A humanidade precisa entender que religião é uma criação humana. Deus não inventou a religião, Ele criou o homem para se relacionar com seu Criador.

Muitos têm transferido sua responsabilidade de se relacionar com o Pai para um líder religioso qualquer. Desejam alguém que ore por eles, que fale a eles a respeito de Deus, alguém que se consagre para que eles recebam o favor do Senhor. Mas estas mesmas pessoas não oram, não procuram o conhecimento de Deus, e nem estão dispostos a se consagrarem. É mais fácil eleger um sacerdote para assumir todas estas responsabilidades. Se eu acredito que Deus irá se relacionar com alguém e através deste relacionamento eu obterei algo da parte dEle, então eu acredito em um ídolo, não no Deus verdadeiro. E há algo agravante nisto tudo: sempre encontraremos homens dispostos a servir como sacerdotes de nossos ídolos, homens que pedirão dinheiro em troca de curas, ofertas em troca de prosperidade, homens que violentarão os textos bíblicos para gerar mensagens agradáveis a nossos ouvidos. “Porque vem o tempo em que as pessoas não terão paciência com o ensino sadio, mas proverão meios para satisfazer suas paixões e reunirão em torno de si mestres que dirão tudo que lhes faz as orelhas coçar. Sim, as pessoas se recusarão a ouvir a verdade e se voltarão para os mitos.” (2 Timóteo 4.3 e 4 BJC). Uma geração que não conhece a Deus é uma geração que busca seus interesses através da religião.

Mikhah encontrou um levi, mas não um levi qualquer. Mais a frente o relado de Shof’tim diz: “Eles levantaram para si o ídolo, e Jônatas, filho de Gérson, neto de Moisés, e seus filhos foram sacerdotes da tribo de Dã até que o povo foi para o exílio.” (Jz 18.30 NVI [Nova Versão Internacional]). A tribo de Dan [Dã] aparece neste versículo, pois no capítulo 18 os vemos roubando o ídolo de Mikhah e chamando o levi contratado por ele. O que me chama atenção é quem era o levita: o neto de Mosheh. É certo que em muitas traduções deste versículo encontramos o nome M’nasheh [Manassés] de acordo com o texto Massorético, porém M’nasheh não era levi, Mosheh sim. O doutor Russell P. Shedd comenta que a versão do texto que diz Manassés “segue a emenda introduzida no texto hebraico mudando já, de há muitos séculos, o nome de Moisés (pai de Gérson, Êx 2.21,22) para Manassés. As consoantes msh são as de Moisés, preservadas nas versões mais antigas (e.g., a Septuaginta). A letra n (tornando o nome de Moisés para Manassés) foi acrescentada, provavelmente, para relacionar este levita idólatra com o mau rei de Israel (2 Rs 21) e evitar qualquer sugestão de Moisés.” (SHEDD, Russel P. Bíblia Shedd, 2.ed. ver. e atual. no Brasil. São Paulo: Vida Nova; Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997. p. 374).

E este fato, aliado a história de Mikhay’hu e sua família, me levou a refletir. A que geração nós pertencemos? Somos aqueles que conhecem a Deus ou apenas a um ídolo? Que geração nós temos formado?

Mosheh, indiscutivelmente, foi um grande homem de Deus, pois a Torah declara: “A partir deste momento, não se levantou em Yisra’el nenhum profeta semelhante a Mosheh, a quem ADONAI conheceu face a face.” (D’varim [Deuteronômio] 34.10 BJC). Mas como todo ser humano ele possuía algumas falhas e uma delas é em relação a sua família. Mosheh não conseguiu ensinar plenamente quem era o Senhor a eles, uma prova disto é que ele demorou a circuncidar seus filhos e, durante a circuncisão, Tzipporah [Zípora] diz: “Você é para mim um noivo sanguinário!” (Sh’mot 4.25 BJC). Vejo nestas declarações que ele serviu realmente a Deus, mas não teve a preocupação de ensinar estes princípios a sua esposa e a seus filhos. Esta falta de instrução gerou o kohen Y’honatan, contratado por Mikhah.

Diante disto, a primeira preocupação que precisamos ter é a de conhecer ao Senhor. Conhecer não significa saber que Ele existe. “Você crê que ‘Deus é um’? Que vantagem há nisso? Os demônios creem nisso também – esse pensamento os faz tremer de medo!” (Ya’akov [Tiago] 2.19 BJC). Conhecer significa se relacionar com este Deus, procurando estabelecer os Seus gloriosos princípios sobre nossas vidas. É colocar em prática aquilo que aprendemos do Senhor. Para isto, precisamos estudar as Escrituras, atentos para tudo aquilo que há em nós em desacordo com a Mensagem, e dispostos a mudar.

Conhecer a Deus significa ter uma vida de oração onde nos submetemos à vontade e a soberania do Pai. É na oração que colocamos diante do Senhor a nossa vontade e nossas necessidades, mas acima disto que dizemos: “tua vontade seja feita na terra como no céu.” (Mattityahu [Mateus] 6.10 BJC). É a vontade de Deus não a minha. É na oração que nos submetemos e declaramos que, acima de nossas vontades, desejamos e confiamos na vontade de Deus.

Conhecer a Deus significa também jejuarmos pedindo a Deus que converta nosso coração aos seus propósitos. “É esse tipo de jejum que desejo, um dia apenas para a pessoa se humilhar? Deve a pessoa pendurar a cabeça como um junco e se derramar sobre panos de saco e jogar cinzas sobre si? É isso que vocês chamam de jejum, o dia para agradar a ADONAI? Eis o tipo de jejum que desejo – liberte os aprisionados injustamente, desprenda as correias dos presos, deixe os oprimidos seguirem livres, quebre todo jugo, partilhe sua comida com o faminto, leve o pobre desabrigado para sua casa, vista o nu quando você o vir, cumpra o dever para com seus parentes” (Yesha’yahu [Isaías] 58.5 a 7 BJC). Isto é jejuar, me submeter à vontade do Senhor ao ponto de me tornar um promotor de Sua justiça e de Sua vontade por onde ando.

“Que nós conheçamos, que nos esforcemos para conhecer ADONAI.” (Hoshe’a [Oseias] 6.3 BJC)

E a partir do momento em que passo a conhecer ao Senhor, e este conhecimento é um processo gradativo que durara por toda a eternidade, preciso começar a transmiti-lo. Gerar na vida daqueles que me cercam o conhecimento do Senhor. Alguns recebem um conhecimento da parte de Deus, mas o retém para si, outros transmitem apenas fragmentos daquilo que aprendeu. Tais atitudes geram uma nova geração que não conhece ao Senhor. O conhecimento do Senhor precisa ser gerado juntamente com nossos descendentes, e descendentes em todos os âmbitos de nossas vidas.

O primeiro âmbito que desejo ressaltar é em nossas famílias. Que tipo de deus nossas mulheres ou maridos têm conhecido através de nossas vidas? Que tipo de deus nossos filhos têm conhecido através de nós? Eles conhecem o Deus verdadeiro ou apenas um ídolo que moldamos de acordo com nossos próprios interesses?

Precisamos ensinar aos nossos as Palavras do Senhor. “Estas palavras, que ordeno a você hoje, estarão no seu coração; ensine-as com cuidado a seus filhos. Fale a respeito delas ao sentar-se em casa, ao viajar pela estrada, ao deitar-se e levantar-se.” (D’varim 6.6 e 7 BJC). Ensinar é falar e viver de acordo com estes ensinamentos. Educar não é apontar o caminho, mas caminhar juntos, de mãos dadas.

O segundo âmbito a ressaltar aqui é em relação aos nossos liderados. Liderar alguém é chama-lo para caminhar com você, afinal, é isto que o Mestre Yeshua [Jesus] fez com seus talmidim [discípulos]. Liderar não é mandar, é treinar um sucessor. Afinal somos líderes ou donos da visão?

Muitos agem como se fossem insubstituíveis, e, talvez com medo de perder o valor, vivem como se fossem os únicos capazes de realizar uma obra. Mas não podemos continuar assim, afinal qual de nós é imortal ou ilimitado. É preciso deixar que os sucessores apareçam, é preciso treiná-los, traze-los para perto de nós com o propósito de andar conosco e aprender tudo aquilo que já aprendemos do Senhor. “Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Sha’ul [Paulo]? Apenas servos por meio de quem vocês vieram a confiar, por meio de um de nós ou de outro. Eu plantei a semente, Apolo a regou, mas foi Deus quem a fez crescer. Portanto, nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que faz crescer – quem planta e quem rega são o mesmo.” (1 Coríntios 3.5 a 7 BJC)

Assim, que nos esforcemos, de acordo com a palavra proferida pelo profeta Hoshe’a [Oseias], para conhecer ao Senhor, estando disposto a transmitir todo este conhecimento para todos aqueles a quem o Senhor colocou ao nosso lado.